Ergonomia em ambientes de saúde: conforto humano, desconforto e qualidade de vida



Ergonomia em ambientes de saúde: conforto humano, desconforto e qualidade de vida

Em agosto de 2014, durante o VI Congresso Brasileiro para o Desenvolvimento do Edifício Hospitalar, realizado em Florianópolis, Santa Catarina, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária publicou o Manual de Conforto Ambiental em Estabelecimentos Assistenciais de Saúde. Este trabalho foi realizado ao longo de mais de dois anos de pesquisa e de muitos encontros, discussões técnicas e larga pesquisa sobre os temas que compõem a complexa rede de abordagens que envolve o conceito de conforto e suas respectivas percepções humanas. Este Manual encontra-se disponível na página eletrônica da Anvisa.

 

Dentre as diversas abordagens apresentadas como fator de promoção do conforto humano em edificações hospitalares, a Ergonomia destaca-se pela sua amplitude de interferências na saúde das pessoas. Cada vez mais somos dependentes das tecnologias da informação (TI) e estas trazem os impactos e desconfortos, algumas vezes até lesões ou mesmo doenças.

 

Contribuir para a melhor qualidade de vida das pessoas é, portanto, uma das funções implícitas na função social que a ciência da Ergonomia tem como responsabilidade. A própria origem da Ergonomia reflete necessidades fundamentais voltadas para a realização de cada atividade humana, destacando que a realização da atividade deve estar adequada a cada indivíduo, ao mesmo tempo em que a compreensão das exigências e limitações humanas devem estar evidentes.

 

De acordo com o professor e pesquisador francês Etienne Grandjean, o papel da Ergonomia é adequar o trabalho ao homem, aliás, título do seu mais conhecido livro, Manual de Ergonomia: adaptando o trabalho ao homem (Ed. Artes Médicas Sul, 1999). O conceito é estabelecido nos objetivos da Sociedade de Pesquisa em Ergonomia (ERS - Ergonomics Research Society), entidade criada em 12 de julho de 1949 durante encontro de pesquisadores interessados em oferecer melhores condições à realização das atividades humanas. Mais recentemente a Associação Internacional de Ergonomia (IEA) atualizou o seu conceito:

 

“A Ergonomia (ou Fatores Humanos) é uma disciplina científica relacionada à compreensão das interações entre seres humanos e outros elementos ou sistemas, e à aplicação de teorias, princípios, dados e métodos a projetos a fim de otimizar o bem-estar humano e o desempenho global do sistema. Os ergonomistas contribuem para o planejamento, projeto e a avaliação de tarefas, postos de trabalho, produtos, ambientes e sistemas de modo a torná-los compatíveis com as necessidades, habilidades e limitações das pessoas” (IEA, 2000).

 

Reconhecendo isso, muitos países já obrigam os serviços de saúde a empregar ergonomistas. No Brasil, diversas empresas, hospitais e demais estabelecimentos assistenciais de saúde recorrem aos profissionais de Ergonomia com frequência, seja para o estabelecimento de correções operacionais de práticas existentes ou para introdução de novas metodologias de trabalho.

 

A Ergonomia pode contribuir fundamentalmente para a prevenção de erros, melhorando o desempenho. No projeto de sistemas mais complexos, como um centro de controle operacional de uma ressonância magnética, equipamentos de hemodinâmica, postos de enfermagem, a Ergonomia surge como um dos fatores mais importantes na redução dos erros em atividades humanas e, por consequência, redução dos acidentes.

 

O erro humano é um tema de pesquisa próprio da Psicologia e da Ergonomia Cognitiva e constitui-se em tema central das mais recentes experimentações ergonômicas. O erro humano também tem produzido relevantes trabalhos e pesquisas em Ergonomia pela Organização Mundial de Saúde (OMS), além de profissionais e pesquisadores de todo o mundo.

 

Com o propósito de formalizar e normatizar as ações ergonômicas para reduzir erros e acidentes foram desenvolvidos regulamentos, leis e normas oficiais com o objetivo de estimular a sua aplicação por meio da ISO (International Standardization Organization), das normas europeias da CEN (Comité Européan de Normalisation), bem como das normas ANSI (Estados Unidos) e BSI (Inglaterra). Além disso, há normas específicas de Ergonomia que já são aplicadas em certas empresas e setores industriais. Ao mesmo tempo em que a Associação Brasileira de Ergonomia (ABERGO) é uma instituição criada em 2004 e “cujo o objetivo é o estudo, a prática e a divulgação das interações das pessoas com a tecnologia, a organização e o ambiente, considerando as suas necessidades, habilidades e limitações”.

 

No Brasil, a Norma Regulamentadora NR 17 - Ergonomia, Portaria n° 3.214, de 8 de junho de 1978 do Ministério do Trabalho, modificada pela Portaria n° 3.751 de 23 de novembro de 1990 do Ministério do Trabalho e Emprego (MET) ainda é a mais importante documentação oficial sobre o assunto. Ao mesmo tempo, devem ser consideradas as recomendações constantes na Norma Regulamentadora NR 32 Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde, Portaria N.°485, de 11 de novembro de 2005, que tem por finalidade “estabelecer as diretrizes básicas para a implementação de medidas de proteção à segurança e à saúde dos trabalhadores dos serviços de saúde, bem como daqueles que exercem atividades de promoção e assistência à saúde em geral”. (Acesso na página do Ministério do Trabalho http://www.mte.gov.br ) 

 

No item 32.1.2 desta referida Norma é feito o esclarecimento “para fins de aplicação desta NR entende-se por serviços de saúde qualquer edificação destinada à prestação de assistência à saúde da população, e todas as ações de promoção, recuperação, assistência, pesquisa e ensino em saúde em qualquer nível de complexidade” (BRASIL, 2005, p. 1).

 

As Normas Regulamentadoras - NR, relativas à segurança e medicina do trabalho, são de observância obrigatória pelos hospitais e empresas privadas e públicas, pelos órgãos públicos da administração direta e indireta, bem como pelos órgãos dos Poderes Legislativo e Judiciário, que possuam empregados regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), conforme recomendação do próprio Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

 

Ergonomistas que atuam em empresas e hospitais trabalham na interface dos problemas e situações; de um lado, com os projetistas e, de outro, com os operadores ou usuários dos sistemas de produção. Nesta função, procuram orientar os projetistas, gestores e trabalhadores sobre as questões ergonômicas, adaptando as respectivas atividades às características e limitações humanas. Além dos ergonomistas, existem outros profissionais que aplicam os conhecimentos e recomendações da Ergonomia. Nestes se incluem os médicos do trabalho, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos industriais, arquitetos, engenheiros, designers de interiores, desenhistas industriais etc.

  

A Ergonomia - conceitos teóricos e recomendações práticas - está muito mais próxima do indivíduo e pode atuar diretamente na possibilidade de obter conforto, segurança, bem-estar e saúde. Portanto, conhecer as interfaces ergonômicas pode contribuir para uma nova forma de pensar e agir na elaboração do projeto oferecendo as condições mais adequadas a cada pessoa. Aliás, princípio fundamental da Ergonomia é adaptar a atividade do trabalho à capacidade humana de realizá-lo. 


Na segunda edição do livro Ergonomia e Conforto Humano (Editora Rio Books, 2016) estão organizados capítulos elaborados por diversos especialistas e estudiosos do assunto com seus respectivos temas. Na Apresentação do livro comento sobre os demais autores: “(...) nesta edição ampliamos o conteúdo e acrescentamos contribuições relevantes sobre as abordagens ergonômicas apresentadas anteriormente por Kátia Butter, Irai Borges, Manuela Quaresma, Sandra Novellino e Viviane Mendonça. O arquiteto professor Ubiratan de Souza apresenta um novo capítulo direcionado aos potenciais beneficiários da Ergonomia - os seres humanos -, tendo como pressuposto que todas as pessoas são usuárias diretas ou indiretas dos estudos, das pesquisas e das ações ergonômicas‟.

 

Em outro novo capítulo os professores arquitetos Luís Otávio Pessôa e Ivan G. Ferreira, apresentam o conforto visual no universo abrangente da Sinalização Gráfica Ambiental. Uma percepção de como a Sinalização Gráfica Ambiental pode ser “um importante meio de comunicação para orientar as pessoas, independentemente do nível social ou cultural, na procura de seus caminhos nos mais diversos espaços, sejam externos ou internos, públicos ou privados”.

 

Que o livro seja também uma contribuição aplicável a todo ambiente onde haja a presença do indivíduo e da necessidade de conforto, segurança e saúde, independente de ser ou não um estabelecimento assistencial para serviços de saúde.


Fábio Bitencourt

Professor INBEC

Educar, formar e preparar Profissionais dentro das normativas aplicáveis ao ensino superior.