O que é preciso saber antes de começar um projeto de reforma



O que é preciso saber antes de começar um projeto de reforma
Centro de Artes Battersea por Haworth Tompkins. Imagem © Fred Howarth - ArchDaily/Reprodução



À medida que a tecnologia avança, arquitetura e construção também avançam. Arquitetos, designers e projetistas ao redor do mundo agora têm infinitas ferramentas e recursos para projetar e construir as cidades de hoje e do futuro. Por mais promissor que isso possa parecer, as novas construções também estão consumindo os limitados recursos do nosso planeta mais rapidamente do que podemos reabastecê-los.


Essa situação deixa os arquitetos com uma responsabilidade importante: a reabilitação e reutilização do ambiente construído existente. Isto significa utilizar o desenho e o pensamento criativo para preservar e incorporar edifícios antigos ou históricos existentes atualmente no presente e no futuro das nossas cidades, adaptando-os através de métodos criativos e sensitivos.


Existem tantas formas de implementar o reúso adaptativo em edifícios quanto há edifícios no mundo, portanto, a questão está em saber por onde e como começar. Por que o reúso adaptativo é importante? Que aspectos devemos ter em mente antes de abordar um projeto de reforma? Como encarar estes projetos?



Por que a reforma e o reúso adaptativo são importantes?


Alejandro García Hermida, professor de Intervenção no Patrimônio Arquitetônico da Universidad Alfonso X el Sabio em Madri, Espanha, diz: "Trata-se de preservar a história, a identidade e a cultura dos ambientes e edifícios urbanos; a preservação de edifícios cuja qualidade e beleza seriam muito difíceis de alcançar de outra forma". Ele fala sobre "transformar e renovar edifícios para torná-los mais eficientes, mais bonitos e sustentáveis, tornando-os propícios ao bem-estar da comunidade que os habita".[1] É uma forma de manter intactas as memórias, a história e a identidade.


Rick ten Doeschate, arquiteto sócio da Civic Architects, que foi o principal escritório responsável pelo projeto recentemente concluído da LocHal Library em Tilburg, Holanda, também revela uma perspectiva interessante. Afirma que "é uma ideia boa e sustentável considerar-se o uso do que já se tem, antes de acrescentar algo novo. É francamente ridículo e preguiçoso não explorar o reúso. Contudo, trata-se de algo que vai além do simples pragmatismo. O reúso é uma forma muito eficaz de alcançar complexidade poética. A perfeição é geralmente bastante maçante, os edifícios mais interessantes carregam as marcas de diferentes épocas e ideologias de desenho”. [2]


Biblioteca LocHal por CIVIC architects + Braaksma & Roos architectenbureau + Inside Outside + Mecanoo. Imagem © Stijn Bollaert - ArchDaily/Reprodução



Particularmente no caso da biblioteca LocHal, houve uma análise prévia da narrativa histórica do edifício, que antigamente funcionava como um galpão ferroviário onde os trens eram construídos e reparados, tornando-se um local crucial na definição do perfil industrial e trabalhista da cidade de Tilburg. "Ao converter a estrutura vazia em biblioteca pública, o tipo mais generoso de edifício público, e ao mesmo tempo criar espaços para se trabalhar, sua história de "aço e suor" é trazida de volta ao grande público e às gerações futuras"[2].


Em termos de sustentabilidade, a reforma de edifícios existentes evita o uso de materiais desnecessários e reduz o desperdício na demolição e construção, aproveitando os materiais que já estão no lugar. A redução significativa do transporte de novos materiais para o local também contribui para a proteção do meio ambiente. Alejandro afirma que é importante "tirar proveito dos edifícios existentes, que foram originalmente concebidos sob parâmetros sociais, econômicos e ecológicos que não dependiam do consumo excessivo de combustível e aplicavam materiais reutilizáveis e menos contaminantes".[1]



Que aspectos temos de considerar antes de abordar um projeto de reforma?


Uma vez que compreendemos claramente a importância da reforma do ambiente construído, é necessário realizar uma análise completa do local e do histórico do edifício para detectar aquilo que pode ser resgatado e aquilo que deverá ser descartado. Segundo Alejandro, conhecer a história do edifício e compreender as suas características construtivas e estruturais é fundamental para "evitar a introdução de materiais e técnicas que não são próprias do edifício e que podem potencialmente danificá-lo".[1]


n'UNDO é um escritório espanhol de pesquisa em arquitetura que tem uma visão interessante acerca da reutilização adaptativa em arquitetura e cidades. Em seu manifesto eles afirmam que arquitetura, urbanismo e planejamento urbano não devem envolver apenas construção e novas produções, mas também reparar, cuidar, limpar e resgatar o que já existe. "Reutilizar, regenerar, reverter, recuperar, reabilitar, revitalizar, relocar, restaurar, em vez de novas construções, agregando valor ao que existe".[3]


Estes conceitos são particularmente úteis para a conscientização do que significa trabalhar em um edifício antigo, nos dando plena percepção do que estamos enfrentando a fim de tomar as melhores decisões. Às vezes, as mais mínimas intervenções são as mais benéficas para o edifício. De modo geral, essas pesquisas e análises devem culminar em um plano de projeto preciso que resulte em uma reforma bem sucedida. Isto significa que o edifício é preservado da inevitável passagem do tempo, é dotado de um novo uso e nova vida, mas mantendo sua integridade e características que o tornam único.



Como encarar esses projetos?


One Room Hotel por dmvA-architects. Imagem © Bart Gosselin



- Decidir qual a intervenção correta para o edifício. As diferenças entre cada método (preservação, reabilitação, restauração e reconstrução) implicam maior ou menor número de intervenções e diferentes técnicas de construção. A escolha da intervenção mais apropriada é feita através da análise da condição física atual do edifício, do novo uso proposto e dos códigos e regulamentos do local.


- O reúso adaptativo confere ao imóvel um novo uso compatível através de reparações, alterações e ampliações, mantendo as características que conferem ao edifício valor histórico, cultural e arquitetônico. É importante notar que "o uso final do edifício determina quais os requisitos que terão de ser cumpridos. Alguns potenciais usos para um edifício histórico podem não ser apropriados se as modificações necessárias não preservarem o caráter histórico do edifício".[4]


- Seguir orientações e recomendações específicas sobre como lidar com os diferentes materiais (alvenaria, madeira, metais) e elementos do edifício (telhados, janelas, aberturas, sistemas estruturais, sistemas mecânicos, elementos interiores e acabamentos).


- Os materiais que precisarem ser mantidos no edifício devem ser protegidos e conservados adequadamente. Se houver alterações maiores, tal como a substituição de um determinado componente, esta nova adição deve "ser projetada e construída de modo que os traços característicos do edifício histórico, seu local e entorno não sejam negativamente impactados".[4]


- Caso tratamentos químicos e físicos sejam necessários, estes devem ser feitos da forma mais suave possível, evitando tratamentos que possam danificar qualquer característica histórica ou particular do edifício.


- Os sistemas estruturais devem ser corretamente identificados, mantidos e preservados. 


- O condicionamento de ar deve ser considerado para garantir um conforto climático sustentável, mas mantendo sempre a expressão arquitetônica do edifício.


- Novos elementos introduzidos no espaço do edifício renovado devem ser compatíveis, mas também é altamente recomendável que sejam distinguíveis da construção original. Desta forma, os novos elementos não se tornam meras imitações. [4]


A realização de um projeto de reforma é certamente um desafio, mas também uma tarefa muito gratificante. Devemos lembrar que cada edifício é único e que os procedimentos e decisões são específicos para cada projeto. As equipes envolvidas devem ser comprometidas e ter a capacidade de se adaptar, pois nesses tipos de projetos geralmente surgem situações imprevisíveis à medida que se desenvolvem. No final, a recompensa é ser capaz de conservar uma parte da história, agregando valor contemporâneo e trazendo novas funções para a vida cotidiana de hoje.




[1] García Hermida, Alejandro. Professor de Intervenção em Patrimônio Arquitetônico da Universidad Alfonso X el Sabio em Madri, Espanha, e Diretor Executivo das iniciativas Richard H. Driehaus na Espanha e Portugal (Premio Rafael Manzano de Nueva Arquitectura Tradicional, Red Nacional de Maestros de la Construcción Tradicional, Concurso de Arquitectura y Premios de las Artes de la Construcción Richard H. Driehaus, Becas Donald Gray de las Artes de la Construcción)

[2] ten Doeschate, Rick. Arquiteto Sócio da Civic Architects. Amsterdã, Holanda.

[3] n'UNDO

[4] Reabilitação como Tratamento, Departamento do Interior dos EUA. Normas para o Tratamento de Propriedades Históricas.



Fonte:

- ArchDaily Brasil


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